O que realmente importa: a carga ou o estímulo para os músculos?
A carga é uma das principais referências no treino, mas o número na barra não explica tudo
Na academia, aumentar a carga costuma ser uma das formas mais visíveis de medir evolução. Se ontem você levantava 30 kg e hoje consegue levantar 40 kg, parece lógico pensar que seus músculos estão trabalhando mais.
Só que, dentro do organismo, não existe um mecanismo capaz de identificar quantos quilos foram colocados na barra. O músculo responde ao que aquela carga provoca nele.
O “idioma” do músculo é a tensão
Durante uma repetição, a resistência provoca deformações mecânicas nas fibras musculares. Essas alterações são convertidas em sinais químicos por um processo chamado mecanotransdução, que ativa vias relacionadas à síntese de proteínas, como a mTORC1.
É por isso que simplesmente acrescentar anilhas não garante um estímulo maior. Se, para levantar mais peso, você passa a usar impulso, encurta a amplitude ou transfere parte do esforço para outros músculos, a carga aumentou, mas a tensão sobre o músculo que deveria ser trabalhado pode não acompanhar esse aumento.
30 kg podem funcionar tão bem quanto 80 kg?
Quando o assunto é hipertrofia, cargas diferentes podem produzir resultados semelhantes desde que o esforço seja suficiente.
Pesquisadores da McMaster University, em estudo publicado no Journal of Applied Physiology, compararam participantes que treinaram com aproximadamente 30% ou 80% de uma repetição máxima (1RM). Quando ambos os grupos realizaram as séries até a falha, os ganhos de massa muscular foram semelhantes.
A explicação está no recrutamento das fibras. Cargas elevadas exigem que fibras musculares de alto limiar sejam acionadas rapidamente. Com pesos menores, elas são recrutadas progressivamente conforme a fadiga aumenta.
O mesmo peso também pode “pesar” diferente
A mecânica do exercício interfere diretamente na tensão produzida. Na elevação lateral, por exemplo, 10 kg com os braços estendidos exigem mais do deltoide do que os mesmos 10 kg com os cotovelos bastante flexionados, porque o braço de alavanca foi alterado.
Amplitude, técnica, velocidade e proximidade da falha também entram nessa equação.
Então, a carga não importa?
Importa, principalmente para acompanhar a sobrecarga progressiva. O problema é olhar apenas para ela. Aumentar os quilos enquanto a técnica e a amplitude pioram pode criar uma falsa sensação de progresso.
Para o músculo, portanto, não interessa o número escrito na anilha, mas o tamanho do desafio que aquela resistência realmente representa.





