O caso da atleta australiana que defecou durante uma competição de Hyrox

O episódio durante a prova de Pequim gerou polêmica e levou a mudanças nas regras da competição

Por Helena Saigh 17 set 2026, 18h00 | Atualizado em 18 set 2026, 01h44
Mulher atlética com top e shorts pretos, faixa verde na cabeça, puxando uma corda grossa com expressão concentrada. Ela está agachada, exibindo músculos definidos, em um ambiente de competição com pessoas e equipamentos ao fundo
Joanna Wietrzyk continuou na disputa após sofrer uma incontinência intestinal durante a prova. (Fred Lee/Getty Images)
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Uma prova que mistura corrida, sled push, remo e outros exercícios de alta intensidade terminou colocando um assunto pouco glamouroso do esporte no centro das atenções: o que acontece quando o intestino simplesmente não acompanha o ritmo do atleta?

Foi o que ocorreu, no último sabádo (12), com a australiana Joanna Wietrzyk, recordista mundial do Hyrox. Durante a etapa de Pequim, na China, a atleta sofreu um episódio de incontinência fecal, mas continuou competindo e terminou na primeira colocação. O problema ganhou proporções maiores porque a competição acontece em ambiente fechado e utiliza equipamentos compartilhados, que acabaram sendo contaminados.

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O caso gerou críticas à atleta e à própria organização, mas também chama atenção para um fenômeno conhecido na medicina esportiva: problemas gastrointestinais durante exercícios intensos são mais comuns do que parecem.

Atleta feminina de costas, com trança ruiva e bandana, usando top e shorts pretos, ajoelhada em pista escura com linhas brancas. Suas pernas e shorts estão molhados e sujos de lama ou terra, indicando esforço físico intenso
Joanna Wietrzyk durante a execução de um burpee após sofrer o episódio de incontinência fecal na prova. (./Divulgação)
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Da comemoração ao pedido de desculpas

Mesmo com a repercussão, Joanna inicialmente celebrou o resultado na internet.

Mulher jovem deitada em maca hospitalar com soro no braço, fazendo bico para a câmera. Veste blusa listrada e tem cabelo trançado. Um braço com relógio inteligente aparece em primeiro plano. Texto sobreposto: go hard or go home they say ... a win is a win in all seriousness, thank you for all the support. ill be back soon x
(@joannawietrzyk/Reprodução Instagram)

“Ou vai com tudo, ou vai para casa, como dizem… uma vitória é uma vitória”, publicou ela no Instagram.

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A postagem foi apagada pouco tempo depois, diante do volume de comentários negativos. Posteriormente, a atleta pediu desculpas publicamente, reconheceu que deveria ter abandonado a competição e desistiu retroativamente do resultado e dos pontos conquistados na prova.

Segundo o jornal South China Morning Post, autoridades chinesas relataram que a equipe do evento isolou rapidamente as áreas afetadas, realizou a desinfecção ao longo do dia, retirou os aparelhos contaminados e providenciou a troca do carpete ao fim da competição.

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Hyrox admite erro e muda as regras

Dias depois da circulação dos vídeos, a Hyrox se manifestou no Instagram sobre o episódio, que colocou em discussão também a responsabilidade da organização em interromper a participação de um atleta nessas condições.

“Pedimos aos nossos atletas que se esforcem ao máximo. Por vezes, eles vão além do que até nós pensávamos ser possível. Essa coragem, resiliência e recusa em desistir são precisamente o que torna os atletas de elite tão extraordinários. Nosso papel é fornecer a eles a estrutura e os limites adequados para poderem competir, ter um bom desempenho e se expressar da melhor maneira possível”, afirmou a organização em nota.

O cofundador da Hyrox, Moritz Fuerste, também admitiu publicamente o erro da organização. “Peço desculpas a todos os afetados direta ou indiretamente, bem como a todos que sentiram que não lidamos com a situação da maneira correta.”

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Fuerste afirmou ainda que a empresa “começou a aprimorar os processos dos eventos e a implementar mudanças imediatas no regulamento” e garantiu que “a partir deste momento, novas regras e procedimentos estão em vigor para evitar que situações como essa voltem a acontecer”.

O regulamento passou a permitir que diretores de prova retirem competidores quando fluidos corporais, incluindo sangue, vômito, urina ou fezes, representarem risco aos demais participantes, registrando o resultado como DNF (Did Not Finish).

Por que exercícios intensos podem afetar tanto o intestino?

Por mais fora do comum que a cena pareça, existe até um nome para o conjunto de alterações gastrointestinais relacionadas ao esforço: síndrome gastrointestinal induzida pelo exercício.

Durante atividades intensas, o organismo redistribui parte do fluxo sanguíneo para os músculos em atividade e para a pele. Uma revisão  publicada no Alimentary Pharmacology & Therapeutics, aponta que, em esforços intensos, o fluxo sanguíneo esplâncnico pode sofrer reduções superiores a 80%. Essa alteração está entre os mecanismos associados a sintomas como náuseas, cólicas e diarreia.

Corrida, intensidade e alimentação entram nessa conta

Não existe uma única explicação para esses episódios. Uma revisão publicada na Sports Medicine, divide os fatores envolvidos em três grupos: fisiológicos, mecânicos e nutricionais.

A corrida produz movimentos repetitivos do trato gastrointestinal, enquanto intensidade elevada, desidratação e determinados alimentos e bebidas consumidos próximos à competição também podem contribuir para o desconforto.

Os sintomas não são tão raros quanto o episódio de Joanna pode fazer parecer. A mesma revisão aponta que, dependendo da modalidade e da metodologia utilizada, entre 30% e 50% dos atletas podem apresentar algum tipo de queixa gastrointestinal durante o exercício, com prevalências ainda maiores encontradas em algumas pesquisas com esportes de resistência.

Mulher atlética de top e shorts pretos, com uma faixa na cabeça, ajoelhada no chão escuro, segurando um saco de areia nos ombros. Suas pernas estão sujas de terra, e ela usa um monitor de tornozelo. Ao fundo, um letreiro PUMA e outras pessoas treinando.
Joanna durante o sandbag lunge, exercício em que o atleta realiza afundos carregando um saco de areia sobre os ombros. (./Divulgação)

O intestino também pode ficar mais permeável

Uma revisão sistemática publicada em 2017 analisou os efeitos de exercícios extenuantes sobre o trato gastrointestinal e encontrou evidências de aumento de marcadores relacionados a lesões intestinais, permeabilidade e endotoxemia conforme a intensidade e a duração do esforço aumentam.

Isso não significa que um treino intenso vá provocar uma situação como a registrada em Pequim. Alimentação, hidratação, temperatura, duração do esforço e características individuais também interferem na resposta gastrointestinal.

No caso de Joanna, portanto, o episódio fisiológico tem explicações conhecidas pela ciência do esporte. A dimensão da polêmica veio do que aconteceu depois dele: a decisão de continuar competindo em um percurso com equipamentos compartilhados e a ausência de uma intervenção imediata da organização.

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