O caso da atleta australiana que defecou durante uma competição de Hyrox
O episódio durante a prova de Pequim gerou polêmica e levou a mudanças nas regras da competição
Uma prova que mistura corrida, sled push, remo e outros exercícios de alta intensidade terminou colocando um assunto pouco glamouroso do esporte no centro das atenções: o que acontece quando o intestino simplesmente não acompanha o ritmo do atleta?
Foi o que ocorreu, no último sabádo (12), com a australiana Joanna Wietrzyk, recordista mundial do Hyrox. Durante a etapa de Pequim, na China, a atleta sofreu um episódio de incontinência fecal, mas continuou competindo e terminou na primeira colocação. O problema ganhou proporções maiores porque a competição acontece em ambiente fechado e utiliza equipamentos compartilhados, que acabaram sendo contaminados.
O caso gerou críticas à atleta e à própria organização, mas também chama atenção para um fenômeno conhecido na medicina esportiva: problemas gastrointestinais durante exercícios intensos são mais comuns do que parecem.
Da comemoração ao pedido de desculpas
Mesmo com a repercussão, Joanna inicialmente celebrou o resultado na internet.
“Ou vai com tudo, ou vai para casa, como dizem… uma vitória é uma vitória”, publicou ela no Instagram.
A postagem foi apagada pouco tempo depois, diante do volume de comentários negativos. Posteriormente, a atleta pediu desculpas publicamente, reconheceu que deveria ter abandonado a competição e desistiu retroativamente do resultado e dos pontos conquistados na prova.
Segundo o jornal South China Morning Post, autoridades chinesas relataram que a equipe do evento isolou rapidamente as áreas afetadas, realizou a desinfecção ao longo do dia, retirou os aparelhos contaminados e providenciou a troca do carpete ao fim da competição.
Hyrox admite erro e muda as regras
Dias depois da circulação dos vídeos, a Hyrox se manifestou no Instagram sobre o episódio, que colocou em discussão também a responsabilidade da organização em interromper a participação de um atleta nessas condições.
“Pedimos aos nossos atletas que se esforcem ao máximo. Por vezes, eles vão além do que até nós pensávamos ser possível. Essa coragem, resiliência e recusa em desistir são precisamente o que torna os atletas de elite tão extraordinários. Nosso papel é fornecer a eles a estrutura e os limites adequados para poderem competir, ter um bom desempenho e se expressar da melhor maneira possível”, afirmou a organização em nota.
O cofundador da Hyrox, Moritz Fuerste, também admitiu publicamente o erro da organização. “Peço desculpas a todos os afetados direta ou indiretamente, bem como a todos que sentiram que não lidamos com a situação da maneira correta.”
Fuerste afirmou ainda que a empresa “começou a aprimorar os processos dos eventos e a implementar mudanças imediatas no regulamento” e garantiu que “a partir deste momento, novas regras e procedimentos estão em vigor para evitar que situações como essa voltem a acontecer”.
O regulamento passou a permitir que diretores de prova retirem competidores quando fluidos corporais, incluindo sangue, vômito, urina ou fezes, representarem risco aos demais participantes, registrando o resultado como DNF (Did Not Finish).
Por que exercícios intensos podem afetar tanto o intestino?
Por mais fora do comum que a cena pareça, existe até um nome para o conjunto de alterações gastrointestinais relacionadas ao esforço: síndrome gastrointestinal induzida pelo exercício.
Durante atividades intensas, o organismo redistribui parte do fluxo sanguíneo para os músculos em atividade e para a pele. Uma revisão publicada no Alimentary Pharmacology & Therapeutics, aponta que, em esforços intensos, o fluxo sanguíneo esplâncnico pode sofrer reduções superiores a 80%. Essa alteração está entre os mecanismos associados a sintomas como náuseas, cólicas e diarreia.
Corrida, intensidade e alimentação entram nessa conta
Não existe uma única explicação para esses episódios. Uma revisão publicada na Sports Medicine, divide os fatores envolvidos em três grupos: fisiológicos, mecânicos e nutricionais.
A corrida produz movimentos repetitivos do trato gastrointestinal, enquanto intensidade elevada, desidratação e determinados alimentos e bebidas consumidos próximos à competição também podem contribuir para o desconforto.
Os sintomas não são tão raros quanto o episódio de Joanna pode fazer parecer. A mesma revisão aponta que, dependendo da modalidade e da metodologia utilizada, entre 30% e 50% dos atletas podem apresentar algum tipo de queixa gastrointestinal durante o exercício, com prevalências ainda maiores encontradas em algumas pesquisas com esportes de resistência.
O intestino também pode ficar mais permeável
Uma revisão sistemática publicada em 2017 analisou os efeitos de exercícios extenuantes sobre o trato gastrointestinal e encontrou evidências de aumento de marcadores relacionados a lesões intestinais, permeabilidade e endotoxemia conforme a intensidade e a duração do esforço aumentam.
Isso não significa que um treino intenso vá provocar uma situação como a registrada em Pequim. Alimentação, hidratação, temperatura, duração do esforço e características individuais também interferem na resposta gastrointestinal.
No caso de Joanna, portanto, o episódio fisiológico tem explicações conhecidas pela ciência do esporte. A dimensão da polêmica veio do que aconteceu depois dele: a decisão de continuar competindo em um percurso com equipamentos compartilhados e a ausência de uma intervenção imediata da organização.





