Canetas emagrecedoras diminuem o metabolismo? Entenda o que acontece no corpo
A redução do gasto energético pode acompanhar o emagrecimento, mas é preciso entender o que realmente está por trás dessa mudança
As canetas emagrecedoras diminuem o apetite e podem levar a uma perda de peso bastante expressiva. Daí surge uma preocupação comum: se a pessoa passa a comer menos e emagrece rapidamente, o metabolismo também fica mais lento?
A resposta exige separar duas coisas. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida não são conhecidos por simplesmente “desligar” ou prejudicar o metabolismo. Por outro lado, a própria perda de peso provoca mudanças no gasto energético, independentemente de ela acontecer com dieta, medicamentos ou outros tratamentos.
Por que o metabolismo diminui quando emagrecemos?
Um corpo menor precisa de menos energia para se manter e se movimentar. Por isso, conforme o peso cai, é esperado que o gasto energético também diminua.
Existe ainda a chamada adaptação metabólica, situação em que o organismo pode reduzir o gasto energético além do que seria explicado apenas pela mudança no peso e na composição corporal.
Mas isso não significa entrar em um suposto “modo de sobrevivência”. Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Nutrition, que reuniu 33 estudos, mostrou que a adaptação metabólica pode acontecer durante o emagrecimento, mas sua magnitude varia bastante e tende a ser menor em estudos metodologicamente mais rigorosos.
E onde entram as canetas?
Ao reduzir o apetite, esses medicamentos facilitam uma menor ingestão de energia e, consequentemente, a perda de peso. Nesse processo, porém, o corpo não perde exclusivamente gordura.
Uma análise de composição corporal do estudo STEP 1, publicada no Journal of the Endocrine Society, mostrou que participantes tratados com semaglutida tiveram redução de 19,3% na massa de gordura e de 9,7% na massa magra. Apesar da redução absoluta, a proporção de massa magra em relação ao peso corporal aumentou.
Ou seja, perder massa magra faz parte da discussão, mas não é correto tratar toda massa magra perdida como músculo nem afirmar que as canetas necessariamente provocam sarcopenia.
Preservar os músculos merece atenção
“Outro ponto de atenção é a composição corporal. Sem orientação adequada, cerca de um terço da redução de peso é de massa magra, incluindo a massa muscular, cuja preservação é fundamental para manter a força, a mobilidade e a autonomia”, reforça Dr. Fernando Valente, professor da Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Medicina do ABC e diretor da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Durante o emagrecimento, treinamento de força, alimentação adequada e atenção ao consumo de proteínas podem ajudar na preservação da massa muscular. A estratégia, entretanto, precisa acompanhar as necessidades individuais e o tratamento médico.
Então, a caneta deixa o metabolismo lento?
Não é tão simples. O gasto energético tende a cair conforme uma pessoa perde peso, e alterações na massa magra e adaptações fisiológicas também podem participar desse processo. Isso não é uma consequência exclusiva das canetas emagrecedoras.
Por isso, tentar evitar qualquer redução do metabolismo é uma meta pouco realista. O foco durante o tratamento deve estar em promover uma perda de peso adequada, preservar a saúde e a massa muscular e manter acompanhamento profissional.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), esses medicamentos devem ser utilizados com indicação e acompanhamento médico, incluindo ajuste individualizado da dose.





