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Cris Vianna: plenitude e a consciência de dizer ‘não’

Cris Vianna celebra a liberdade da maturidade, a importância de dizer "não" e revela sua jornada de uma carreira construída com dedicação

Por Juliany Rodrigues
9 mar 2026, 12h00 •
  • Cris Vianna define seu momento de atual em uma palavra: plenitude. A atriz, modelo e cantora conta, à Boa Forma, que aprendeu a tirar do caminho tudo o que já não faz mais sentido para sua vida, mesmo que isso seja um tanto quanto desconfortável.

    Mas isso não significa que sua vida tenha se tornado livre de oscilações. “Estar plena”, segundo ela, não é um estado de permanência.

    “Hoje, eu estou bem. Amanhã pode ser que não. E tudo bem. É possível estar plena hoje e amanhã nem tanto. A vida é assim.”

    A diferença é que, agora, ela sente que tem mais clareza e consciência sobre si. “Hoje, me ver mais madura é uma delícia. Existe uma liberdade que antes não era possível”, explica.

    A atriz, que logo completará 49 anos, reflete que o amadurecimento também trouxe mais firmeza para estabelecer limites.

    De acordo com ela, sua versão do início da carreira poderia ter se poupado de algumas dores se tivesse dito “não” quando fosse preciso.

    “Talvez eu tivesse derramado menos lágrimas se soubesse que podia dizer “não” com tranquilidade. Se entendesse que nem toda conquista precisa acontecer naquele momento — e que isso não diminui o seu valor ou a sua capacidade.”

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    Nossa capa de março/2026, Cris Vianna também fala, em entrevista, sobre beleza, autocuidado e sua relação com a prática de atividades físicas. Confira na íntegra:

    Quando começou sua carreira, imagina que chegaria ao lugar onde está hoje?

    Nunca fui muito de idealizar. Não sou uma pessoa muito lúdica, nunca fui aquela menina cheia de fantasias — e também não me tornei essa mulher.

    Acho que isso tem muito a ver com a forma como fui criada. Cresci entendendo que a vida precisava ser vivida da maneira mais normal possível. E que o que viesse além disso seria uma boa surpresa.

    Quando comecei, meu maior sonho era simples: estudar, trabalhar e ajudar a minha mãe. Isso era uma necessidade real para a gente.

    Eu nunca enxerguei outro caminho para melhorar de vida que não fosse por meio do estudo e do trabalho — e carrego isso comigo até hoje.

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    Sou completamente pé no chão. Às vezes, até demais. Sou muito direta. Engraçado dizer isso sendo atriz, uma contadora de histórias, mas é verdade.

    Dentro da dramaturgia, dos estudos e da minha profissão, meu exercício mais desafiador é justamente sair do roteiro. Eu gosto de seguir o que está escrito. Improvisar não é algo que venha com facilidade para mim.

    Às vezes eu me cobro: “preciso colocar um pouco mais de lúdico nisso”. Eu acho maravilhoso quando acontece, mas não é natural para mim.

    Também não cresci sonhando com essa carreira, porque tudo parecia muito distante da minha realidade. Não tenho ninguém na família ligado à arte — nem música, nem teatro, nem cinema, nem TV.

    Como se deu a sua paixão pela arte?

    A arte entrou na minha vida quando eu escolhi esse caminho e decidi estudar.

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    Eu fui estudar. Fiz teatro, estudei muito, me formei, tirei meu DRT. Tenho DRT de atriz e de cantora. Depois vieram os testes — e, aos poucos, os convites.

    Minha paixão pela arte foi assim: natural, gradativa. Não foi um estalo, foi construção. Tudo aconteceu no tempo certo, como consequência de estudo e de dedicação.

    Eu sempre quis cantar. Cantava no coral da escola, participei de um grupo vocal em São Paulo antes mesmo de me tornar atriz, cantora ou modelo. A gente viajava, se apresentava… A música sempre esteve na minha vida.

    Tudo o que surgia, eu buscava estudar. Sempre foi assim: se me interessava, eu queria me aprofundar. Eu me pergunto muito: isso me faz bem? Se a resposta é sim, eu sigo.

    Como modelo, eu lia muito nos camarins, gostava de história. Começaram a me chamar para testes de comercial. No começo, eu achava estranho — fazer e não falar nada.

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    Quando surgiu um teste com texto, eu pensei: “Eu não sei falar”. Olha que loucura (risos). Todo mundo sabe falar. Mas eu tinha vergonha.

    Foi aí que entrei no curso de teatro, para aprender a me expressar melhor. E ali eu entendi o quanto aquilo me tocava. Fui me aprofundando, estudando, me apaixonando.

    Nada foi aleatório. Nunca foi “vai que dá certo”. Nunca fui descoberta na rua. Sempre foi teste, estudo, dedicação. Nunca foi sorte.

    O que isso revela sobre quem você é?

    Acho que isso revela muito sobre quem eu sou. As atividades que eu escolho fazer e os caminhos que decido seguir dizem muito sobre mim.

    Sempre acreditei que, quando você se propõe a fazer algo, precisa estudar, se aprofundar, entender melhor aquele universo para poder se entregar de verdade. Mesmo que você nunca esteja completamente pronta.

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    Eu sou uma mulher muito pé no chão. Até solitária, eu diria. E fazer escolhas que me fazem bem tem muito a ver com isso, com a minha personalidade.

    Claro que eu gostaria de fazer apenas trabalhos que amo. Mas nem sempre é assim. Eu preciso pagar minhas contas, continuar trabalhando, me manter. Às vezes a escolha não é só paixão — é consciência, responsabilidade.

    Hoje, felizmente, consigo escolher mais o que me faz feliz.

    Sempre gostei de dançar. Fiz jazz, fiz balé já adulta — não tive essa oportunidade na infância. Experimentei o contemporâneo e entendi que não era para mim. Acho lindo, mas meu corpo não responde daquela forma. E tudo bem. A gente vai fazendo escolhas.

    O que a Cris Vianna de hoje diria para a do início da carreira? 

    Hoje, eu acho que a Cris de agora não teria suportado algumas coisas da forma como suportou no passado.

    Talvez eu tivesse derramado menos lágrimas se soubesse que podia dizer “não” com tranquilidade. Se entendesse que nem toda conquista precisa acontecer naquele momento — e que isso não diminui o seu valor ou a sua capacidade.

    São fases. Às vezes dá certo, às vezes não. E tudo bem. Muitas coisas eu teria escutado de outra forma, sem simplesmente engolir.
    Eu diria para aquela menina: “Vai dar tudo certo. Você vai continuar feliz.”

    Não tenho saudade dos meus 20 e poucos anos. Foi difícil. Eu sou grata por esses períodos, porque me formaram — mas não gostaria de voltar para eles.

    Hoje, me ver mais madura é uma delícia. Existe uma liberdade que antes não era possível. E isso é muito potente.

    O que significa beleza para você?

    Para mim, beleza é se sentir bem consigo mesma. É se olhar no espelho e estar em paz com o que vê. Eu me olho e penso: “Estou em paz”. E isso, para mim, é o ponto mais importante.

    A gente vive criticando as escolhas dos outros sem entender o contexto. É claro que existem excessos, mas, no fim das contas, ninguém é dono do corpo ou da imagem de outra pessoa. Cada um tem o direito de fazer as próprias escolhas. Esse também é um lugar de amadurecimento.

    Dificilmente vou me sentir bonita se não estiver me sentindo bem. Para mim, uma coisa está totalmente ligada à outra. Se eu estou chateada, incomodada, minha energia não está boa, eu sei. E aí me pergunto: o que está acontecendo? Como posso cuidar disso?

    Já aconteceu de eu sair sem a melhor roupa, sem o cabelo produzido — e ouvir: “Você está linda”. E eu estava mesmo. Porque eu estava bem.

    Quando estou bem, eu me sinto iluminada. Quando não estou, eu respeito isso também. Se posso escolher, fico em casa, descanso, reorganizo minha energia. Hoje, para mim, beleza e energia caminham juntas.

    Como você trabalha sua autoestima no dia a dia?

    Eu nunca fui uma pessoa de autoestima baixa. Isso não veio da minha base. Cresci em uma família de gente muito bonita — minha mãe é linda, minhas avós eram lindas, meu pai era um homem muito bonito.

    Mas, falando de estética, eu sou muito crítica comigo. Esse é um exercício constante para mim. Às vezes eu me olho e penso: “Calma, não precisa tanto”. Tenho amigos maquiadores, artistas, pessoas que me ajudam a olhar para mim com mais gentileza.

    Existem coisas em mim que eu não gosto — e que talvez para outra pessoa fossem irrelevantes. Mas, para a gente, pesam.

    O que mudou foi a forma como eu me trato diante disso. Hoje eu tento me olhar com mais carinho. Entender que, muitas vezes, quando estou chateada com a minha imagem, na verdade estou chateada com outra coisa.

    Cuidar de si é cuidar do corpo, da alma e do coração. E quando falo de coração, não é sobre relacionamento — é sobre você com você mesma.

    Eu acredito muito em uma mulher solteira feliz. Estar acompanhada pode ser maravilhoso, mas estar sozinha também pode ser pleno.

    Esse cuidado consigo mesma, às vezes, exige perguntas difíceis. Às vezes é desconfortável, é cruel. Mas eu gosto de enfrentar isso. É parte do meu processo.

    Faz terapia?

    Faço terapia, sim. Hoje estou dando uma pequena pausa, mas sempre que sinto necessidade, volto. Para mim, faz toda a diferença.
    Eu acho que a gente não foi criado para fazer terapia.

    O povo preto não teve a oportunidade de fazer terapia por muito tempo. Ela sempre foi um espaço mais acessível a pessoas brancas, historicamente.

    Com o tempo, fui entendendo o quanto é importante ter um lugar seguro para falar. Alguém que escute de forma imparcial, sem julgamento, sem que aquilo pese nas suas relações pessoais.

    Como é bom falar. Como é libertador poder se expressar. Acho que escolher a arte também teve a ver com isso. No palco, eu posso falar, gritar, amar, sentir — mesmo que seja através de outra personagem, de outra história.

    Como é a sua relação com a musculação? Você gosta ou faz mais por obrigação?

    Não vou negar: musculação não é o meu tesão. Mas eu reconheço que é fundamental. Já teve uma época em que eu nem fazia.

    Eu ganho massa com muita facilidade. Fiz circo uma vez e precisei parar. Em três meses treinando pesado, minhas costas já não cabiam nas blusas, os braços cresceram muito.

    Mudou completamente o desenho que eu queria para o meu corpo. E a musculação dói. Dói mesmo. Mas eu entendo que é essencial para fortalecer os músculos, para manter o corpo firme, saudável, de pé. Então hoje tento olhar para a musculação com mais carinho.

    Também busco outras formas de treino, experimentar coisas diferentes. Brinco que em 2026 vou virar uma garota fitness (risos). Hoje, eu faço musculação duas vezes por semana, mas queria fazer quatro. Às vezes falto, claro, acontece. Mas eu sei que meu corpo vai agradecer pela prática.

    O que você mais ama fazer para movimentar o corpo?

    Dançar. Se eu pudesse, faria três vezes por semana. É uma das coisas que mais gosto. Estou sempre buscando aulas de dança. Para mim, é prazer.

    Eu tinha um professor querido que dava aula na minha casa, mas ele foi chamado para o Cirque du Soleil. Falei: “Pelo amor de Deus, vai e dança por mim!”. É irrecusável.

    Eu admiro quem corre. Acho incrível. Mas eu não corro. Agora, eu faço uma caminhada. Gosto muito.

    Amo escada — aquela escada mortal. Cinco minutos já acabam comigo, é intensa, cansativa… mas eu adoro. Quero voltar para o pilates também — já fiz, mas por pouco tempo.

    Quais são os seus objetivos com a prática de atividades físicas?

    Eu tenho a consciência de que, sem exercício, não dá para seguir. Hoje mesmo fiz três reuniões seguidas. A gente fica sentada horas, o corpo sente, a respiração muda, a energia cai.

    Outro dia fui para a avenida assistir aos ensaios. Fiquei quatro, cinco horas em pé. No dia seguinte, o pé estava acabado. Quando eu desfilava, então? O cansaço vinha forte.

    O exercício realmente cuida do corpo. Ele dá estrutura, dá munição para continuar. Não tem como negar que ele faz toda diferença.
    E depois que você faz… é uma delícia. A sensação de dever cumprido é única.

    Em algum momento, já fez dietas restritivas?

    Já fiz dietas abusivas comigo mesma. E não divido detalhes porque não quero que ninguém repita as loucuras que eu fiz. Eu queria muito conquistar determinados trabalhos e achava que precisava atingir um peso específico. Não foi só uma vez. Eu focava, chegava naquele número — e conseguia o objetivo.

    Mas hoje tenho total consciência de que não precisa viver isso. Não é saudável. Depois eu ficava um caco. Recuperar o corpo e os hábitos era muito mais difícil.

    Hoje entendo que existem outras formas. Não estou falando só de medicação — mas de treino regular, alimentação equilibrada, acompanhamento médico. Temos muito mais informação e acesso.

    Dá para se organizar. Levar uma fruta na bolsa, um whey, uma barrinha. Fazer escolhas mais conscientes.

    Dieta restritiva demais é destrutiva. Vira uma agressão ao corpo e à mente. Você fica irritada, com raiva de todo mundo. Não precisa disso.

    Eu tenho uma coisa boa: não sou muito do doce. Se você me convida para uma festa cheia de sobremesas incríveis ou para uma churrascaria, eu vou escolher a churrascaria. Sou louca por carne.

    Admiro muito quem não come carne — fico até impressionada. Porque eu não consigo viver sem. Mas não gosto de carne sangrenta, não. Prefiro bem passada.

    Doce nunca foi minha fraqueza, e acho que isso me ajuda. Tenho amigos que, se não comem uma sobremesa depois da refeição, ficam mal-humorados.

    Também não gosto de gordura. Aquela parte mais gordurosa do churrasco? Não como mesmo. O sabor não me agrada. Adoro salada, alface, comida mais leve. Isso para mim é fundamental.

    Talvez o meu ponto fraco seja uma boa macarronada. Não é meu prato favorito, mas gosto bastante. E aí é onde preciso ter um pouco mais de cuidado.

    Hoje, você tem algum cardápio específico que segue ou prefere algo mais intuitivo?

    Hoje é mais intuitivo.

    Durante a semana, independentemente do que vai acontecer no fim de semana ou de alguma meta específica, eu procuro manter uma alimentação saudável.

    Tomo meus chás para desinchar, chia pela manhã, organizo minhas refeições, bebo muita água.

    Minha regra é simples: mantenha-se bem. Se precisar enfiar o pé na jaca, tudo bem. Depois você volta.

    Eu não faço esse tipo de “compensação”. Se vou fazer um churrasco em casa, não vou ficar o dia inteiro só na sopa. Se vou tomar refrigerante, tomo o normal.

    Se for para comer doce, eu como o doce. Não a versão “light”.

    Prefiro cuidar de mim o ano inteiro para, quando quiser aproveitar alguma coisa, fazer isso tranquila — sem culpa.

    Você gosta de mudar o visual?

    Eu gosto de me mostrar diferente, de me apresentar de outras formas. Pessoas pretas ficam lindas de muitas maneiras — podemos tudo. Então gosto de me enxergar loira, lisa, de chanel, de coque crespo, com o cabelo mais ondulado… Gosto de brincar com isso.

    Talvez isso venha também da minha profissão. A gente pode mudar completamente para viver uma personagem. Eu adoro esse lugar.
    Mas sou apaixonada pelos meus cachos. É raro você me ver sem eles. Isso é um registro meu.

    Já usei cabelo liso por muito tempo. Na época de modelo, era quase um “mood” da passarela — e também era mais prático para as trocas rápidas. Fiz franja, usei repartido no meio por anos. Já alisei, já fiz progressiva. Esperei crescer de novo e está tudo bem.

    Nunca foi sobre não aceitar meu cabelo. Sempre foi sobre escolha. Se em algum momento usar liso vai ser melhor para um trabalho, eu uso.

    Como são os seus cuidados com a beleza hoje?

    Quem vem à minha casa fica um pouco chocado. Eu tenho um camarim — estou nele agora, inclusive — e é cheio de cremes. Hidratação para cabelo, para pele… muita coisa.

    Outro dia um amigo me deu uma bronca: “Para de comprar tudo pela internet! Vai na loja, testa, vê se funciona para você”. Vou à minha dermatologista e levo uma sacola cheia de produtos. “Posso usar isso? E isso?” Ela olha e fala: “Esse não. Dá para sua mãe. Esse aqui não é para a sua pele. Esse pode”.

    É quase uma fiscalização. Mas eu adoro e eu uso mesmo os meus produtos. Amo um pote bonito, amo creme, amo a estética do skincare.

    Não existe tomar banho e não me hidratar depois. Tenho hidratante para tudo: mão, unha, cílio… Demoro horrores para me arrumar. E não adianta dizer que eu não sou vaidosa. Eu não conto essa mentira (risos).

    Se pudesse definir este momento da sua vida em uma palavra, qual seria? E por que?

    Plenitude.

    Estou me sentindo em um momento muito pleno. Tenho boas novidades para o futuro, fiz escolhas importantes para chegar até aqui. Em 2025, tirei muitas coisas do meu caminho — com dor, mas com gratidão.

    Ainda tenho muitos sonhos para realizar. Mas hoje eu estou bem. Amanhã pode ser que não. E tudo bem. É possível estar plena hoje e amanhã nem tanto. A vida é assim.

    Acho que a diferença é que agora eu tenho clareza. Às vezes você está tão bem na sua vida, mas não consegue enxergar porque está angustiada com alguma coisa.

    Hoje eu consigo ter clareza sobre o meu lugar, sobre o que está acontecendo. E é um bom lugar. Eu sou muito grata por isso.

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